domingo, 14 de abril de 2013

Frêmitos na alma de um inato amor.


AUTORES:
Lucas de Oliveira Rebelato
Yuri Gabriel Correa Ancelmo
Aline Maria Peres
Camila Rodrigues da Silva
Igor Henrique Buscain de Almeida

CAPÍTULO PRIMEIRO

Numa noite gélida de fortes trovoadas, na infausta intempérie que irrompe o céu, em 1910, Angeline uma jovem criativa, imaginativa, de pele lívida como a neve, de fulgente candidez, lábios rubros, quentes e ávidos de um beijo, porém intangível, cabelos vermelhos como o fogo, e olhos verdes como a natura infindável do mundo, expõem sua força, coragem e independência para julgar uma decisão que mudaria sua vida completamente. Este ano foi o ápice de tudo que Angeline poderia suportar, chegou ao fim sua imagem ingênua de menina, agora se transformara em uma mulher e deveria se comportar como tal.
Cresceu na bela cidade de Veneza, em meio a uma família desestruturada e uma grande tristeza recente, passou por cima disto tudo e se aventurou em uma viagem sem destino, por cidades que desconhecia na magnífica e vasta Europa.
            Estabelecendo-se agora em 1913, em Florença, uma linda, inefável e fúlgida jovem não passa despercebida, ascendendo-se sobre todos, sem conhecer as ruas das cidades por onde transita seus pés a levam sempre num lugar em comum, onde se sentia à vontade, em sua zona de conforto.
            Sentada numa lápide qualquer, lamuria sofrimentos que passou ao lado de sua avó e suportou sozinha após a sua morte:
            - Olá de novo, Elizabeth, eu estou com saudades de você, de quando íamos ao cemitério e apreciávamos a natureza mórbida, lembro da primeira vez que você me levou lá, com estranheza e repúdio, te perguntei a razão de gostar daqueles locais e olhando no fundo dos meus olhos, com toda a certeza do mundo e a sinceridade de uma criança, respondeu: “- Quando a morte é tão bela, é doce morrer”. E aquele cenário repleto de pessoas desfalecidas e flores arrefecidas se curvava ao nosso redor, nos aplaudiam, te fazia rejuvenescer, lembrando dos seus tempos de glória.
            Enquanto ideologicamente falava com sua avó, Angeline vê a transposição de uma figura masculina ao lado de árvores desfolhadas naquele cenário monocromático.
            - O que uma mulher tão bonita faz neste lugar conversando sozinha?
            - Que susto! De onde você veio?
            - Eu estava passando por aqui, escutei uma voz e decidi vir aqui pra ver quem era a louca.
            - Não sou louca, apenas estou conversando com a minha avó.
            - Onde ela está? Não estou vendo.
            - Ela está morta.
            - Aqui?
            - Não.
Sem mais explicações ela deu-lhe as costas e saiu, ele correu atrás dela e a segurou pelo braço de maneira formosa e singela.
- Aonde você vai? Nem me disse o seu nome! Eu sou Pietro, encantado.
Sorrindo, Angeline afaga o semblante de Pietro e continuando sua jornada sem rumo, deixa ali um homem com sua paixão efervescente e pulsante no coração.
Pietro era um jovem italiano, estudante de medicina de uma família tradicional e grande, que se estendia até a Alemanha, onde ele passava suas férias desde criança e estava com passagem marcada para a próxima semana.
A cidade era Hamburgo e ele mantinha laços amigáveis com pessoas de lá. Seu melhor amigo era Stevan, um jovem educado, gentil e cavalheiro, porém sua família era pobre e sua mãe, Helena era viúva, o que o tornou homem mais cedo que os garotos de sua idade.
Stevan estava ansioso para chega de seu amigo e sua mãe vendo-o diferente pergunta:
- Qual o motivo da sua agitação?
- Acabei de receber uma carta de Pietro, ele vem para Hamburgo na próxima semana.
- Já faz tempo que não o vemos. Na carta diz mais alguma coisa?
- Ele está com receio de que seja recrutado para a guerra que está por vir, quer aproveitar a vida e não pensar nisso. No período que ele estiver aqui não vamos falar em guerras.
- Estou com medo por você meu filho, as suas chances de ir para a guerra são maiores que as dele, não suportarei se você for!
- Fique calma minha mãe, eu construirei o meu destino.
Stevan era contra a guerra, mas estava pronto para defender seu país se preciso. Sempre pensou em servir à aeronáutica, mas saber que sua mãe era fraca e sozinha, o prendia em Hamburgo. Já Pietro gostava de uma parte mais trágica e destruidora da guerra, a morte e o sofrimento, o choro e a agonia, estes que explicitam-se no instante em que na frase: “O meu espírito vai se consumindo, os meus dias vão se apagando, e só tenho perante mim a sepultura...”, observa-se como perdedor e merece a morte, presente na carta que enviara a Stevan.
Dias depois o momento conclui-se, na estação ferroviária chegava o trem 726 vindo da Itália, e Pietro estava nele. Ao descer do trem e ver seu grande amigo, Pietro abraça Stevan que não via há mais de um ano.
- Pietro!
- Stevan, quanto tempo!
- Os estudos estão tomando todo meu tempo, não tenho se quer um segundo para escrever uma carta.
- Mas e as bebidas?
- A meu caro amigo, desta minha fiel companheira não me separo tão cedo, não desvalorizo outras, mas ela me entende. Como dizia Lorde Byron “Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri.”
- Não seja hiperbólico Pietro, aproveite a vida e sinta o sabor prazeroso que ela pode nos proporcionar.
- Só sentirei esta volúpia com uma única mulher.
- Quem é esta sortuda?
- Não sei o nome dela, a encontrei em um cemitério falando sozinha lá em Florença, uma mulher que mexeu com meu coração, graciosa como o cair de uma pena, de olhos verdes e cabelo vermelho, pálida, após me ver levantou e em uma lacônica conversa começou a vagar pela rua sem parâmetros a seguir, lânguida, de aspecto melancólico.
- Todo esse tempo para identificar tantas características respectivas a ela e um simples nome não lhe foi entregue.
- Você não entendeu bem, eu estava em uma casa de ópio e ao sair de lá, caminhava ao redor do cemitério da cidade, ouvindo uma voz fui ver o que era e ela apenas pareceu-me um anjo, uma virgem de inerente pureza e beleza natural, que ao tocá-la se foi com o vento, desvaneceu em minha frente e me deixou ali só. Estou cansado de viver, mais ao lado dela sinto que conseguirei prosseguir minha vida e amar, se não foi somente devaneio.
- Você ainda tem esperança de encontrá-la se realmente a viu?
- Como você sempre diz “Se for o meu destino”. Dá-me a esperança com que o sempre mantive.
Aos risos continuaram andando, até a grande residência da família de Pietro, onde combinaram de se encontrar mais tarde.
- À noite me conte mais sobre este inefável anjo.
- Tudo bem. Eu vou descansar desta longa viagem e à noite reencontraremos os velhos amigos que aqui fiz com você, há quanto tempo não os vejo. Todo mundo faz papel de histrião.
No caminho de volta para sua casa, Stevan retorna a estação ferroviária, quando percebe que esqueceu seu chapéu, no banco em que esperava Pietro. Ao chegar lá, outro trem tinha vindo de Paris e nele uma passageira se destacou. Seu cabelo estava preso, de costas parecia um homem, mais ao virar mostrou a beleza de uma mulher independente e que ofuscava os olhos de Stevan. Distraída e desastrada, esta mulher parecia mais uma menina, um homem apressado sem percebê-la derruba toda a sua pouca bagagem.
- Quer ajuda?
- Não preciso, eu já estou recolhendo.
- Meu nome é Stevan, disse ele recolhendo mesmo assim algumas vestimentas.
Num relance viu o rosto dela, quantos doces pensamentos, quantos desejos floresceram naquele olhar. Ao juntar toda a bagagem, a bela moça esbanjou um lindo sorriso de agradecimento e apressada, perdeu-se no meio daquela aglomeração de pessoas, deixando ali Stevan sem reação a refletir: “Quem é aquela linda moça?”.

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